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A história começa 10:30 da manhã, mais uma vez atrasada (aqui está o primeiro atraso). O local é o telegraph saddles, base da maioria das trilhas do Wilsons Promontory national park, o sul mais sul da austrália (nao considerando a Tasmânia).

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tira a blusa que tá calor!

Eu estava uns 10 minutos parada em frente as placas que indicavam as direções das trilhas e suas respectivas distâncias. Maldito dia em que resolvi catar conchinha na praia de bobeira! Agora tinha cerca de mais 6 horas e meia de sol, e a trilha que eu mais queria fazer, eram desesperadores 17 quilômetros só ida.

Depois dos minutos de negação em frente as placas, a decisão foi até que fácil saber por qual delas ir: Sealers cove, 9,6km só ida, estimativa de 3 horas por trecho. Daria pra ir, relaxar meia hora e voltar, cansada, mas ainda com luz do dia. Pão de forma, sardinha, água e amendoim na mochila, vamos apertar o passo.

Tudo começou reto, bordeando um vale desses que você não consegue ver o fim. O sol preguiçoso de inverno me dizia que eram 8 horas da manhã, apesar de já ser quase meio dia. Quando o trajeto era descoberto, eu tinha que amarrar 2 das três blusas de frio na cintura, mas dali a pouco vinha a parte coberta pelas arvores, e eu criando um pagode na cabeça pro samba que tinha que dançar pra vestir as blusas de volta “lá vem a frigorífica GEMT”.

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Coloca a blusa de volta!

Uma coisa no entanto não parava de tirar a minha paz: o raio do caminho só descia. Já diz o ditado da estrada “tudo que desce, dói proporcionalmente para subir”. O isolamento forçado devido ao começo difícil na Austrália fez estrago de dentro pra fora. A brasileira de pele lustrosa, piadista e aventureira se tornou aos poucos um lagarto gordo trocando de pele, depressivo e cabelo arrebentado.

Pela primeira vez em meses eu estava suando de verdade. Meus olhos corriam todo aquele mato diferente e transformavam cada canto numa coisa perfeita pra tirar foto. Percebi que os pássaros australianos, apesar de serem os mais lindos que já vi, não são exímios cantores. Ainda assim eu tentava imitar um por um que ouvia.

E então paramos para descansar em uma cachoeira no meio do caminho.

– A gente ainda tá muito longe?
– não! Acho que vai descer mais uns 20 minutos, e daí vem uma parte reta, de tablado, moleza!

Era meu Baby perguntando a um casal que voltava a trilha. Dei uma olhada para a menina, gordinha. Se ela rosinha e cheínha desse jeito tá subindo e sorrindo, eu não vou morrer no caminho, pensei.

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Sem morrer!

Chegamos no tablado, onde a floresta ficou com um carão de “jurassic park” cortando o pântano cheio de samambaias gigantes, árvores de troncos completamente retorcidos e grilos gritando. Eu olhei o relógio e esse indicava que nós ainda caminharíamos mais 1 hora. O mar parecia sempre ali, mas nunca chegava. As blusas já estavam todas na cintura, mesmo no frigorífico. Dei “high five” em todas a samambaias que se esticavam no meio caminho, resultado de uma alegria boba enclausurada por meses de escassez de viagem.

E aí, chegamos.

Uma baía inteira se abriu na minha frente, onde caí de joelhos, depois rolei umas três vezes até uma concha acertar a minha testa

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Como no tempo do Cook

-Ah disgrama, tu de novo?- reclamei batendo a areia do corpo e voltando do meu estado de minerva.

A baia é o que a austrália era quando o capitão Cook chegou por aqui em 1770, pelo menos na minha cabeça. Sentei com meu sanduíche de atum e o baby ao lado, vendo aquelas árvores velhas e embaraçadas formando uma muralha em frente ao mar não sei por quantos séculos. Do lado direito tinha um rio de água verde pelo qual se atravessa para chegar no camping. Uma noite naquela praia seria algo sensacional, assumo, mas e tudo pra carregar nas costas?

Preciso entrar numa academia.

Meia hora de deleite naquela praia deserta de tirar foto e colocar no quadro, começamos a voltar. Vou me limitar a dizer que depois da caminhada eu passei DOIS DIAS sem me mover da cama da van, sobrevivendo de cereal e frutas pra não cozinhar.

Foi a primeira vez que me senti totalmente em casa chegando na van. deitei na cama e deixei cada parte do meu corpo doer, o joelho em especial me chicoteava, pendurei a cabeça pra fora da cama, abracei a minha perna e fechei os olhos com força enquanto a dor me furava. Daí olhei pra fora e fixei o olhar:

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Terra?

A lua subia por trás de uma ilha pelada de frente para o mirante em que passaríamos clandestinamente a noite. Lua cheia, cheia de buraquinho, dando a impressão que o visual não se tratava do planeta Terra.

-Não sei onde esse caminho da nossa vida vai dar, mas o visual é incrível… – pensei alto em português.

Tal caminho seria difícil, dolorido muito dos dias, mas no final das contas, lindo. Nada como o caminho certo.

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