Conheci a Luciana Zeni através do blog, ela deixou um comentário tão gentil e educado que eu acabei a convidando pra uma entrevista, ao falar com ela no telefone descobrimos que éramos vizinhas e lá fomos nós tomar café em Dee Why. Ficamos um tempão batendo papo e eu perguntei tudo sobre psicologia que você possa imaginar, ela sempre dava respostas sensatas e sagazes que só uma ótima psicóloga consegue dar.

A Luciana ama estudar e tem um currículo incrível, formada em psicologia, especializou-se em Psicologia Analítica pela PUC-SP e em Psico-oncologia pelo Hospital AC Camargo. Em 2011 recebeu o título de Mestre em Ciências pela Fundação Antonio Prudente/Hospital AC Camargo baseado em seu trabalho na área de cuidados paliativos e psico-oncologia.

Em 2014 obteve seu registro profissional na Austrália (AHPRA), onde é Membro da Associação de Psicólogos Australianos (MAPS). 

1) Seu nome, cidade onde mora, há quanto tempo e quem mora com você?

Luciana Zeni, moro em Sydney com o meu marido e minha sobrinha.

2) Como surgiu a ideia de vir pra Austrália e por que escolheu Sydney?

Um dos meus irmãos já esteve aqui várias vezes e sempre disse que voltaria para morar e se estabelecer aqui, então já havíamos ouvido falar muito bem da Austrália. Em janeiro de 2013 fui desligada da empresa onde trabalhava e uma semana depois meu marido fez a proposta de aproveitarmos a situação e mudarmos para cá por 6 meses para ele estudar inglês; em duas semanas estávamos com tudo decidido e pago, pois queríamos embarcar o quanto antes. Chegamos aqui em Abril de 2013.

Escolhemos Sydney após conversar com vários conhecidos que já haviam vindo para a Austrália por ser a maior cidade, mais cosmopolita e mais “agitada”. Somos de São Paulo e uma das grandes preocupações era se iríamos nos acostumar a morar em um lugar muito mais calmo.

3) Como é ser psicóloga na Austrália? (Conseguiria fazer uma pequena comparação com o Brasil)

O que percebo é que aqui existe maior acesso à informação sobre saúde mental/emocional, situação que contribui para a diminuição dos estigmas associados ao tema. Além disso, a saúde mental/emocional faz parte da política de saúde pública (o Medicare cobre parte dos custos de psicoterapia para pacientes com diagnóstico de transtornos emocionais), existem programas do governo de ajuda para pacientes com deficiência cognitiva, diversas instituições desenvolvem pesquisas e divulgam informações atualizadas sobre vários temas da área, ou seja, há investimento de capital financeiro e intelectual na área. Isso tudo faz com que a nossa profissão seja respeitada e valorizada. Para mim, essa é a maior diferença entre ser psicóloga no Brasil e na Austrália.

Outra grande diferença é que para mantermos o nosso registro profissional aqui na Austrália temos que continuar estudando ou desenvolvendo atividades que contribuam para o nosso desenvolvimento profissional. Essas atividades incluem cursos, seminários, treinamentos, supervisão, entre outras, e estimulam o contato entre psicólogos. No Brasil, o desenvolvimento profissional contínuo não é obrigatório.

4) Como é trabalhar com os pacientes Australianos?

Percebo que os australianos aceitam melhor o fato de serem encaminhados ao psicólogo, provavelmente pelos fatores que citei acima sobre acesso a informação e valorização da saúde emocional. Além disso, há o desafio inicial do idioma.

Mas trabalhar com pacientes australianos ou de outras nacionalidades é como trabalhar com pacientes brasileiros, pois cada paciente é diferente em diversos aspectos e faz parte do nosso trabalho saber lidar com a individualidade de cada um.

5) Como é o mercado de psicologia na Austrália? E como você vê o mercado para os psicólogos brasileiros?

Como atuo na Austrália há menos de um ano e apenas em consultório particular não posso falar sobre o mercado como um todo.

Na área em que atuo, considero o mercado parecido com o do Brasil, ou seja, existe bastante concorrência e uma boa rede de contatos/network é fundamental para manter um número significativo de clientes.

Existem muitas oportunidades de trabalho para quem atua com crianças e adolescentes (principalmente em situações de abuso e trauma) e a remuneração é consideravelmente maior do que no Brasil (mas oscila bastante entre áreas de atuação).

Não percebo nenhuma discriminação ou diferença de tratamento com psicólogos brasileiros.

6) Como é o processo de reconhecimento da profissão?

A primeira parte do processo é avaliação da equivalência da formação acadêmica (que muitos chamam de validação de diploma) e a segunda parte é a aplicação para o registro profissional.

O órgão que avalia a equivalência da formação acadêmica é a APS – Australian Psychological Society (www.psychology.org.au). Em resumo, eles avaliam todo o histórico acadêmico (matérias cursadas, carga horária, notas) da graduação e pós-graduação (se houver) e emitem um parecer dizendo que a formação é equivalente a X anos de estudo aqui.

Na Austrália são necessários 6 anos de estudo para se formar com psicólogo.

As informações completas podem ser encontradas aqui: http://psychology.org.au/membership/qualifications/

Quem deseja exercer a profissão no país deve obter o registro profissional.

O órgão responsável pela regulamentação e aprovação do registro é o Psychology Board of Australia (http://www.psychologyboard.gov.au) e essa segunda parte do processo é mais demorada, pois os psicólogos formados fora do país devem solicitar o registro profissional provisório e realizar um “estágio” de no mínimo 3 meses, chamado Transitional Program.

Durante o período do Transitional Program, o profissional deve realizar o Exame Nacional de Psicologia (The National Psychology Examination).

Ao final do “estágio” e tendo sido aprovado no Exame, o profissional solicita o seu registro definitivo.

As informações completas podem ser encontradas aqui: http://www.psychologyboard.gov.au/Registration/Overseas-Applicants.aspx

7) Quanto tempo leva do início do processo até o reconhecimento da profissão? Qual é o custo aproximado?

A avaliação da equivalência da formação acadêmica leva aproximadamente 8 semanas e o custo aproximado é de AUS 1.000.

A avaliação da aplicação para o registro provisório leva de 4 a 6 semanas e para o registro definitivo demora 10 dias. O custo aproximado para a obtenção do registro, incluindo o Exame é de AUD 1.500.

O meu processo todo levou 6 meses, mas o tempo varia de acordo com inúmeros fatores, como a necessidade de estudos complementares, disponibilidade para realizar o Transitional Program e a aprovação no Exame.

8) Você tem alguma dica pra quem esta começando o processo?

A minha dica é: não desista e faça as coisas com calma! Parece difícil quando lemos tudo isso, começamos a juntar a papelada e a preencher os formulários, mas se você quer voltar a atuar na área ou se este é o caminho mais viável para sua residência permanente, o esforço vai valer a pena.

9) Tem alguma comunidade de psicólogos na Austrália?

Existem diversas associações de psicólogos na Austrália; acredito que a APS seja a maior delas.

10) Tem mais alguma informação que você considera relevante pra dividir conosco?

Não falei nas respostas anteriores sobre o IELTS, pois ele é pedido em momentos diferentes de acordo com a necessidade de cada profissional, então vou explicar agora.

Caso solicite a avaliação da equivalência acadêmica para fins de migração, o resultado do IELTS será solicitado pela APS, como parte dessa avaliação.

Caso solicite a avaliação da equivalência acadêmica para apenas para obtenção do registro profissional (ou outros motivos), a nota do IELTS será necessária apenas quando o registro provisório for solicitado ao  Psychology Board.

Em ambos os casos a nota mínima exigida é 7 (sete) em cada um dos subtestes do módulo acadêmico (IELTS Academic).

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Imagem: listdose

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Michelle Strazzeri
Casada com o amor da minha vida. Mãe da Felicity que enche minha vida de cor e alegria. Apaixonada por Jesus e com a vida que eu pedi a Deus <3

14 COMMENTS

  1. Olá, gostei muitos dessa parte do blog, de entrevista com brasileiros vivendo/falando do mercado de trabalho, de suas vidas etc.
    Seria bom colocarem uma entrevista com uma pessoa empregado em uma profissão em demanda na Austrália, seria legal saber se foi mais fácil ou nem tanto.
    Adoro muito o blog de vocês, quando aparece algum noticia do blog, atraves do google now, eu corro aqui e vejo, kkkk.
    Ansioso para o próximo.

    Boa tarde e tudo de bom.

    • Muito Obrigada Pedro!
      Qual a profissão vc gostaria que eu tentasse entrevistar?
      Espero que de tudo de certo pra vc aqui!

      Abs,
      Michelle

      • Olá Michele
        Omg, eu posso escolher ? Que massa. 🙂
        Eu gostaria que fosse Engenharia Civil, já que é a profissão que pretendo seguir. Gostaria de saber quais softwares eles mais usam também. Se não fosse pedir muito, eu gostaria de alguma pessoa de Melbourne ou alguma cidade que está crescendo cada vez mais nas construções civis.
        Obrigado pelo retorno 🙂 🙂
        Boa noite, abs.

      • Olá, Michelle! Adorei a entrevista. Poderia entrevistar um jornalista ou alguém da área de Comunicação que conseguiu emprego na área? Abraços!

  2. Olá Michelle,

    Eu achei a entrevista muito interessante. Gostaria de “pedir” uma entrevista com alguém da área de TI, principalmente, da área de infraestrutura e segurança. Já vi muitas matérias de TI, mas a maioria ligada a galera de desenvolvimento/programação. Acompanho o blog a um bom tempo e acho o máximo ! Parabéns

    • Olá Elthon.

      Vou tentar achar alguém da área de infra estrutura sim.
      Obrigada pelo encorajamento, espero que de tudo de certo pra vc!

      Abs,
      Michelle

  3. Muito boa a entrevista. E se não for incomodo, deixo minha sugestão.
    Poderia entrevistar algum Desenvolvedor Web?
    E se possível, alguém de frontend ou PHP.

  4. E área de Marketing e Comunicação? Morei 2 anos em Brisbane e não tive nenhuma oportunidade. Não conhecia muitas pessoas. Seria legal ver se alguém se deu bem nessa área aí.

  5. Oi Michele, sou psicóloga e adorei a entrevista! A psicologia está na lista das profissões com preferência para migração. Gostaria de ver uma entrevista abordando o processo de migração pra quem tem uma das profissões da lista! Obrigada

  6. Olá! adorei a entrevista e concordo com a Luciana, principalmente no que se diz respeito ao investimento do sistema de saúde ao acesso a diversas áreas, principalmente a saúde mental, que é a minha área. Vejo o blog desde antes mesmo de vir pra Australia e adoro as informações. Sou Terapeuta Ocupacional (profissão em demanda) e trabalho no departamento de saúde faz três anos. A vocês que estão no começo da jornada – Não desistam – a estrada é longa, na maioria das vezes cansativa, mas vale a pena!!! abraços 🙂

    • Olá Thaysa, sou Terapeuta Ocupacional e gostaria de mais informações sobre a validação da profissão aí na Austrália. Poderíamos conversar? Meu facebook é Barbara Klipel, se puder entrar em contato eu agradeço!

  7. Olá Michele, adorei a entrevista e foi bastante esclarecedora. Também sou psicóloga formada, faço MBA em Recursos Humanos pela PUC-RJ e atuo na área organizacional. Você conseguiria uma entrevista nessa área da Psicologia, com algum profissional de Rh? Obrigada.

  8. Ola Michelle, acompanho com frequência os posts de vocês, acho muito interessante o conteúdo e a qualidade da informação, gostaria de sugerir uma entrevista com algum profissional da administração, principalmente na área financeira. Abraços!

  9. Olá, eu também sou psicóloga querendo ir para a Australia. Gostaria de falar com a Luciana Zeni, vcs têm algum contato dela? Obrigada!

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