É difícil fazer entrevista com amigos, a Denise é uma mulher inteligente, articulada e com um coração super generoso. Sabe aquelas pessoas que quando começam a pesquisar sobre um assunto, vão tão a fundo, que viram especialista? Então, ela é assim. Além disso, ela é tão sincera que até assusta, doa a quem doer, falar o que pensa é com ela mesma.  E eu, claro, adoro isso!

Ela e o marido tem um dos melhores blogs sobre a Austrália (Awaywego – Rumo a Australia), com informações riquíssimas para advogados e arquitetos. Eu poderia fazer 50 entrevistas com temas variados com ela, mas escolhi a maternidade, por que há dois meses nasceu um anjinho lindo chamado Lucas. A família deles é super unida e os dois são uma inspiração em como dividir os cuidados de um bebê, é lindo e raro ver um pai tão cuidadoso e disposto pra cuidar do filho como o Thiago. Então, vamos a primeira de muitas entrevistas:

1) Seu nome, cidade onde mora, há quanto tempo e quem mora com você, qual é o seu visto?

Meu nome é Denise, moro em Sydney há 3 anos com meu marido, Thiago e o meu filho Lucas. Viemos com visto de residente, meu marido aplicou pela profissão dele estar em demanda.

2) Como Foi sua gravidez?

Eu fiz tratamento de fertilização in vitro (FIV) aqui na Austrália por 1 ano, até engravidar em março de 2014. A gravidez foi desgastante emocionalmente e com alguns sustos, mas nada sério. Passei muito mal com os enjoos no primeiro trimestre, o segundo foi tranquilo e o terceiro de muita ansiedade.

3) Como foi a escolha do médico e do Hospital? Qual era o seu plano de saúde?

Por causa do meu histórico de FIV e complicações antes de engravidar, ficamos com medo de fazer o acompanhamento pelo sistema público. Eu adorava o médico que me acompanhou no tratamento pra engravidar, e como ele é também obstetra, foi natural escolhermos fazer o pré natal com ele. O hospital – St George Private Hospital – foi o que ele atuava, que coincidentemente é razoavelmente perto de onde moramos.
Meu plano de saúde foi o Medibank.

4) Qual era o seu plano de parto e Como foi o seu Parto?

Eu sempre sonhei com parto normal. Meu médico chegou a oferecer uma cesária eletiva por conta de alguns probleminhas que eu tive na gravidez, mas eu bati o pé que queria parto normal e ele concordou. Só que como fiz FIV meu médico disse que não poderia passar das 40 semanas, na verdade ele determinou como marco 39 semanas, se o bebê não nascesse antes disso eu seria induzida para o parto normal.

Como não entrei em trabalho de parto naturalmente, fui internada no dia que completei 39 semanas para a indução, que começa com procedimentos de amolecimento do cérvix, 12 horas depois a bolsa foi estourada pelo médico. Minhas contrações estavam muito esparsas, então eles me deram um hormônio intravenoso para acelerar as contrações. Como isso torna a dor ainda mais violenta, pedi também a anestesia peridural.

Porém depois de 8hrs de contrações o parto não evoluía, eu continuava sem dilatação, o bebê não encaixava direito, comecei a sangrar sem que o médico soubesse de onde vinha o sangue, o coração do bebê estava entrando em estresse com o hormônio intravenoso, e por tudo isso fui levada para uma cesária de emergência.

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5) Como foram os Primeiros Cuidados do Lucas?

Minha recuperação da cesária foi muito difícil, sentia muitas dores e mal conseguia levantar da cama, então meu marido ficou comigo o tempo todo no hospital e ele é quem trocava fralda e pegava o Lucas pra eu amamentar. Fiquei 5 dias no hospital e a ajuda das enfermeiras foi fundamental. Tem também um pediatra do hospital que visita o bebê pra ver se está tudo bem, além de ser feito ainda no hospital o teste de audição, do pezinho e dadas as primeiras vacinas.

6) Como foi o acompanhamento do pós parto?

No hospital as enfermeiras ajudavam bastante, meu obstetra foi me ver 2 dias, um deles no dia da alta, e depois ele marca uma consulta de revisão para 6 semanas depois. Como eu pedi para ter alta 1 dia antes do previsto, pois não aquentava mais ficar no hospital, os pontos não puderam ser retirados na alta, então eu tive que voltar lá depois pra retirar.

7) Como foi/esta sendo a Amamentação?

No hospital correu tudo muito bem, o Lucas pegou bem o jeito da coisa e eu também recebi muita ajuda da consultora de amamentação que tem no hospital, ela dá palestras diariamente lá e você pode também pedir pra ela assistir você amamentando pra ela consertar eventuais equívocos na pegada do bebê. Entretanto quando eu tive alta e fui pra casa é que o leite desceu com força e passei uma semana muito difícil.

Amamentar é maravilhoso, uma conexão incrível com o bebê, mas não é nada fácil! Além disso você fica 24hrs em função disso, amamentando a cada 2-3 horas, sendo que cada mamada pode durar até 1hr. Eu sigo amamentando exclusivamente com leite materno (Lucas agora tem 2 meses), mas não julgo quem opta pela fórmula, pelo motivo que seja.
8) Qual foi a maior dificuldade em ser mãe até agora?

Sem dúvida a amamentação e a privação de sono. O primeiro mês do bebê é muito difícil pois os pais (principalmente os de primeira viagem) tem mil dúvidas, o bebê parece muito frágil, e a rotina é cansativa.

Depois as coisas vão se ajeitando e no segundo mês o bebê começa a interagir mais, a sorrir, o que é muito recompensador. Ainda sigo com privação de sono e com alguns percalços na amamentação, mas tenho esperança que em breve as coisas vão ficar mais fáceis.

9) Qual foi a maior diferença em ter um bebe aqui na Austrália?

O suporte dado a grávida e aos pais é muito maior, sem dúvida. Existem inúmeros grupos de apoio, ainda durante a gravidez, e depois do nascimento do bebê tem muito auxílio para a amamentação (eu cheguei a entrar em contato com a Australian Breastfeeding Association – e eles foram ótimos, e no próprio site tem muita informação), além do acompanhamento feito pelo Early Childhood Health  Clinic do seu bairro, que faz uma visita inicial ao bebê na segunda semana de vida dele e depois tem Parent’s Groups semanais onde os pais podem ir tirar dúvidas, conversar com as enfermeiras, conhecer outros pais com bebês da mesma idade e montar os grupos de mães/pais do bairro.

Na gravidez têm também um enorme suporte das midwives (parteiras), que são quem fazem os partos na verdade, e quem opta pelo acompanhamento pelo sistema público tem uma assistência mil vezes melhor que a do SUS no Brasil.

Outra diferença gritante é que aqui não tem essa facilidade de se contatar um obstetra ou o pediatra como ocorre no Brasil, em que os pais podem ligar pros médicos a qualquer hora e receber retorno.

Quando eu estava grávida e tinha alguma dúvida eu ligava pro hospital, e eles contactavam o meu obstetra e dependendo do assunto ele me ligava ou passava as instruções pra própria enfermeira e ela é que me retornava.Além disso, a não ser em casos graves, os bebês não vão no pediatra e sim no GP (General Practitioner/ Clínico Geral) que é o médico da família. Eu demorei pra me acostumar com essa ideia de não ter um especialista à disposição, mas hoje em dia até gosto, achei um GP que adoro e confio até mais nele pra levar o Lucas que no pediatra que foi vê-lo no hospital quando ele nasceu.

Em compensação, apesar dos médicos não ficarem acessíveis 24hrs, existem diversas hotlines que vc pode ligar e receber orientação, como a MotherSafe Line, Australian Breastfeeding Association, Tresillian, etc.

10) Como funciona a licença maternidade na Austrália? (Válido somente para quem possui o visto de residência permanente)

A licença é de 1 ano, com garantia de cargo, mas a empresa não é obrigada a pagar nada e o governo paga 1 salário mínimo (em torno de $620 por semana) por 18 semanas. Muitas empresas pagam o salário do empregado por um período, por mera liberalidade. No meu caso a minha empresa pagou apenas 6 semanas.

Ah, e a licença vale para pais também! Meu marido como trabalha numa grande empresa tem licença paternidade de 3 meses pagos integralmente pela empresa, a serem tirados durante o primeiro ano do bebê, desde que o pai seja o cuidador, ou seja, como eu pretendo voltar a trabalhar quando o Lucas estiver com 7 meses, o Thiago vai tirar mais 3 meses de licença pra ficar com ele.

Além disso eu vou voltar a trabalhar apenas 3 vezes por semana, pela dificuldade de se achar creche todos os dias, e minha empresa aceitou isso numa boa. É super comum aqui mães voltarem a trabalhar part-time, e até pais fazem acordos com as empresas para não trabalhar 1 dia na semana, ou sair mais cedo pra pegar o filho na creche, e de uma maneira geral as empresas são bem tolerantes e compreensivas.

Vale ressaltar que a licença maternidade/paternidade depende de alguns requisitos e existem ainda outros benefícios do governo dependendo da renda do casal. É só entrar no site do Centrelink pra ver os benefícios que se aplicam a cada casal.


11) Você teria mais alguma informação que acredita ser relevante pra dividir conosco?

Uma coisa sensacional na Austrália é a facilidade de se sair com bebês nas ruas. Diferente do Brasil, aqui a orientação é que se o bebê recebe leite materno ele tem a proteção de anticorpos da mãe e pode sair na rua desde cedo. Eu comecei a sair na terceira semana de vida do Lucas, no início saídas curtas para locais abertos e sem aglomeração de pessoas, e é super tranquilo pois todo lugar tem Parent’s room, com trocador de fralda (shoppings tem banheiros exclusivos para pais, com salas privadas contendo cadeira de amamentação, trocadores, micro-ondas pra esquentar o leite/comida do bebê, banheiro conjunto para pais e filhos com vasos em miniatura para os pequenos, e alguns banheiros tem até espaço de brincadeira para as crianças maiores se entreterem enquanto os pais cuidam do bebê).

Além disso as ruas não são esburacadas, ando pra cima e pra baixo com o carrinho gigante do Lucas, pego trem sozinha com ele e todos ajudam, inclusive o condutor do trem já retardou um pouco a partida do trem pra dar tempo de eu entrar num vagão com banco pra sentar e parar o carrinho em segurança. O mesmo já aconteceu quando tive que pegar um ônibus que não tinha acessibilidade – o motorista parou e veio me ajudar a carregar o carrinho para descer as escadas.

Some-se a isso uma infinidade de parques e atividades gratuitas para bebês/crianças (essa semana, por exemplo, eu comecei a frequentar as aulas de música e contador de história para bebês na biblioteca do meu bairro, que ocorrem uma vez por semana e são gratuitas) e você tem o país perfeito para se criar um filho. 🙂

+++

Muito Obrigada Denise pela entrevista maravilhosa e por dividir conosco um tema tão íntimo, certamente vai ajudar grávidas de primeira viagem em terras australianas. Todo amor do mundo pra sua família linda e que o Lucas traga ainda mais felicidade pra vocês.

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18 COMMENTS

  1. Amei a entrevista!!! Denise como sempre articuladíssima com as palavras e as ideias. Amiga linda de viver e Lucas o bebê mais lindo, fofo e bonzinho ever!
    Mi, falta pouco!!!! ❤️❤️❤️
    Beijo grande!!!!

  2. Olá, parabéns pelo bebe. Desculpa a intromissão, mas é uma curiosidade que eu tenho sobre a Australia. Quando um bebe nasce nos EUA, ele automaticamente recebe cidadania americana, independente da origem dos pais; nos países europeus, é o sangue que conta, ou seja, mesmo que o bebe nascer na Europa, ele só tem cidadania se os pais forem europeus. Como funciona isso na Australia?? É como nos EUA ou como na Europa?? OBrigada e felicidades

    • Aqui ele só é Australiano se um dos pais for cidadão australiano ou um dos 2 tiver a residência permanente. Se os 2 pais forem estudantes brasileiros ele é brasileiro, mas até consegue a cidadania se ele viver aqui por muito anos. (Vou tentar ver quantos anos são pra passar a info correta)

  3. Adorei a matéria. Fiquei com dúvida em relação a amamentação em lugares públicos. Como é visto? Há preconceito? Também gostaria de saber se há lugares onde bebês não podem ir. Grata

    • As vezes rola uns artigos na mídia sobre isso, pessoas dizendo que são contra, mas acho q são minoria. Eu sempre amamento na rua e nunca vi sequer um olhar torto. A maioria das mulheres usa um paninho pra cobrir mas é mais por opção própria.
      Quanto a lugares onde bbs não podem ir, eu não conheço. Alguns restaurantes eu acabo não indo porque não tem espaço suficiente pro carrinho. Por outro lado existem muitos restaurantes baby friendly que até incentivam a presença de bbs e crianças, tem área de lazer pra eles e tal.

  4. Adorei o texto ja que tbem estou gravidinha (week 27) e tenha a mesma opiniao da Denise. No meu caso a diferenca e que estou utilizando o sistema publico (Medicare) e nao tenho nada a reclamar. Recebo toda assistencia necessaria. Acrescentaria no seu texto que aqui na Australia a grande diferenca e a simplicidade que tratamos a chegada de um baby. A simplicidade dada para se ter um enxoval, baby shower e ate a montagem do quartinho e o que mais me encanta, nao ha frescura ou luxo para estes itens.

  5. Entrevista bacana e informativa, parabéns! E que coisa mais fofa este Lucas.
    Só quanto aos comentários sobre amamentar em público…Minhas amigas mães usam não apenas o tal paninho como se escondem do grupo para amamentar. Se estamos em um restaurante por ex, procuram por uma sala vazia se possível, ou senão vão ao banheiro. Ainda não sei se vou tomar tanta precaução quando chegar minha vez, mas o paninho vou usar para não causar polêmica!

  6. Olá Denise! Parabéns pelo bebê! Gostaria de tirar algumas dúvidas em relação a FIV pois tbm moro em Sydney e estou tentando engravidar. Mas meu marido fez a reversão da vasectomia então estamos com dificuldades. Eu tenho o visto de estudante, sabe me dizer se é possível realizar a FIV com esse tipo de visto? Caso possa me passar mais detalhes segue meu email: mayara.msn@gmail.com

    Muito obrigada!

    • Acho que é possível sim, Mayara, vc só vai pagar mais caro porque não vai ter o rebate do Medicare e nem a cobertura pra parte hospitalar do procedimento, então vai ter que pagar tudo por fora. Ainda assim eu acho mais barato que no Brasil… Entra em contato direto com as clínicas, elas é que vão poder te dizer melhor de preço: http://ivf.com.au, http://www.genea.com.au (tem uma também em Bondi Junction que eu já ouvi dizer que é bem mais barata, mas não lembro o nome e não sei se as taxas de sucesso deles são boas. Da uma pesquisada no Google).

  7. Boa tarde Denise! Eu fiquei apaixonada pelo hospital publico de Sydney… ainda nao estou gravida, mas pretendo. Seria possivel eu ter o meu bebe ai? ir so para ganhar o nenem nesse hospital? moro no Brasil…

  8. Ola Michelle, Ola Denise,

    Obrigada por essas informações.
    Gostaria de saber mais sobre como é a gravidez (cobertura do Medicare, licença de estudo/ trabalho) para quem tem visto de estudante ou de dependendo de estudante.

  9. Ola Michelle fico feliz por ver uma irmã crista nos ajudando!
    Minha duvida : e difícil conseguir o visto de permanência?

    • Olá Luzimenire.

      Depende muito para algumas pessoas é muito fácil, por exemplo, uma pessoa que se formou em TI, fala inglês bem e tem mais que 8 anos de experiência e é jovem, é só juntar a papelada e esta na Austrália em 6 meses. Agora quem é da área de saúde não fala inglês já fica mais difícil. Aconselho você a procurar um agente de imigração registrado no MARA, para ele avaliar sua condição.

  10. Eu sou licenciada em quimica e meu marido é cabeleireiro somos cidadaos europeus moramos aqui na europa
    a 12 anos. Gostaria de viver ai mas acho que minhas condições sao minimas concernente a qualificacao !

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