A Australiana Tracey Bryan, que mora em Brisbane, descreveu perfeitamente como é viver na Austrália e falou sobre muitos pontos delicados da Austrália e da cultura Australiana. Muitas descrições batem com o texto do Jerry – A Mente do Brasileiro na Austrália e a Experiência de Quem Volta. Mas só uma Australiana mesmo pra descrever pontos tão importantes sobre o país.

Espero que todos tenham maturidade e entendam que é a visão dela e que nenhuma descrição de cultura ou país deve ser generalizada.

Como é Viver na Austrália?

Essa é uma pergunta difícil, como uma verdadeira Aussie, geralmente somos um povo auto depreciativos e não gostamos de demonstrar patriotismo (exceto nos esportes e no dia de Austrália). Mas eu vou tentar. 🙂

Para o contexto, eu viajei para os EUA (muitas vezes), Canadá, Egito, Marrocos, Reino Unido (algumas vezes), Israel, Itália, e NZ. E eu morei com vietnamitas durante uma década, então conversei muito sobre esse assunto.

Rural X Austrália Urbana
Eu cresci na Austrália rural, e não há uma nítida diferença entre a Austrália urbana (Onde mora aproximadamente 90% da população). Eu acho que a maior diferença é que a Austrália rural é muito mais homogeneamente branca, tem menos funcionários do governo e tem acesso a menos serviços do governo. Eu acho que todos esses fatores contribuem para um menor nível de confiança no governo e maior suspeita de não-brancos, que acontece em cidades australianas.

A Parte social
Talvez a característica mais marcante da Austrália é que temos um nível muito elevado de confiança social. Quando compramos algo dos comerciantes, esperamos que eles não estão tentando nos enganar. Nós confiamos no nosso governo, que emprega muitos de nós é responsável e por isso nos sentimos um senso de propriedade sobre o governo. Sabemos que pessoas boas e decentes são funcionários do governo, porque muitos de nossos amigos e família estão nesses departamentos. Nós geralmente não ficamos chateados que pagamos impostos relativamente elevados, porque sabemos que temos produtos e serviços de qualidade em troca.

E eu acho que é esse alto nível de confiança social que nos permite ter as leis como, não ter armas na Austrália. Nós confiamos que os nossos policiais são competentes. Nós confiamos que o nosso governo não vai começar a tentar “roubar” o que é nosso. Nós confiamos que a polícia é eficaz para limitar o mercado negro de armas ilegais, e irá nos ajudar quando precisamos. Nós confiamos que o nosso carro estará onde estacionamos quando voltar e que ninguém vai ter roubado nossa casa.

Nós também confiamos que vamos obter cuidados de saúde em hospitais, que vamos ter moradia e alimentação se enfrentarmos tempos difíceis, que nossas escolas e universidades irão nos proporcionar uma educação de qualidade e que o nosso transporte público funcionará. E todos esses benefícios são por causa dos impostos que pagamos. Vivemos em um país incrivelmente seguro e com pouca corrupção.

Nossos pontos de vista contraditórios sobre o Racismo
É desconcertante, mas somos um pouco racista em um sentido impessoal, mas isso é por causa dos nossos ideais igualitários numa base individual. Temos fortes leis contra o racismo e incitação ao ódio, e a maioria das pessoas vão respeitar isso. É altamente improvável você ouvir alguém dizer “eu odeio o grupo X” ou algo similar.

O racismo se manifesta muito mais sutil. Por exemplo, há uma percepção generalizada de que algumas centenas ou milhares de requerentes de asilo (em grande parte do Oriente Médio e Sul da Ásia)  representam uma enorme ameaça ao nosso modo de vida. É uma minoria desprezível de Australianos que pensa assim, mas ambos os principais partidos políticos demonizam os requerentes de asilo. Isso é uma das coisas mais vergonhosas sobre a Austrália contemporâneo, na minha opinião.

No entanto, neste mesmo contexto, se um australiano é convidado a ir a um churrasco de um amigo do Sri Lanka que está aguardando o resultado de seu pedido de asilo, o australiano vai  querer conhecê-lo mais e tentar descobrir mais sobre seu país e fará com que o imigrante se sinta bem-vindo na Austrália. E aquelas pessoas que foram fortemente anti asilo poderão até mesmo mudar seu ponto de vista completamente, como resultado desse encontro. Muitas pessoas que têm esse “racismo impessoal” são assim por causa da falta de exposição a outras culturas, na minha opinião. Este fenômeno é mais forte na Austrália rural.

Ciente do Contexto mais Amplo

Eu acho que a Austrália, em relação a outros outros países, somos muito voltados para o exterior. Sabemos que somos uma nação pequena e isolada, por isso estamos sempre conectados com a política em países ao redor do mundo.

Nós também estamos cientes de que em relação à grande maioria da população do mundo, e em particular em relação à maioria dos nossos vizinhos da região nós somos extremamente privilegiados (com a exceção da Nova Zelândia). E eu acho que nós sentimos um pouco a necessidade de “expiar” e ver o nosso privilégio imerecido. Consequentemente, nós temos uma taxa muito elevada participação em organizações como a Anistia Internacional, e somos muito ativos em campanhas de justiça social. Isso acontece menos na Austrália rural.

O apoio social
Isso também flui através da generosa segurança social. Na Austrália quem esta desempregado recebe mais do que  um trabalhador dos EUA que ganha um salário mínimo. Não temos um limite de quanto tempo você pode receber benefícios para desempregados, mas os que recebem o benefício precisam se candidatar a empregos e participar de treinamentos, pra demostrar uma verdadeira tentativa de encontrar trabalho. Ainda existe um enorme desestímulo de ficar desempregados por aqui, porque as pessoas empregadas na Austrália ganham muito mais do que o salário dado pelo governo.

Da mesma forma, as pessoas com deficiência também têm acesso a benefícios generosos. Algumas pessoas reclamarem “é o meu imposto que paga esses benefícios”, mas não há nenhum movimento organizado lutando contra isso e certamente ninguém advogando para a sua que isso não exista mais. Eu acho que a maioria dos Australianos acham que a nossa economia vai muito bem, por isso não é preciso tirar esses benefícios. Estamos felizes em fornecer algum nível mínimo de dignidade para aqueles que não podem trabalhar, e os poucos que não querem encontrar um emprego, provavelmente seria mais problemático mantê-los em um trabalho, que eles vão prejudicar a produtividade e isso é o pequeno preço que se paga para “mantê-los fora do mercado”. Eu também acho que esse benefício contribui para os nossos baixos níveis de falta de moradia e taxas relativamente baixas de crimes contra a propriedade.

Os australianos rurais geralmente são menos inclinados a apoiar a nossa generosa segurança social, talvez porque muitos são os agricultores e é um trabalho extremamente difícil para ganhar o sustento.

Pragmatismo triunfa sobre o idealismo

Nossa visão em relação a segurança social chega quase ao pragmatismo. Os Aussies não ficam tão preocupados sobre o que é justo e o quais são os nossos direitos, como eu vejo em acontecendo em muitas outras nações, estamos mais preocupados com aspectos práticos para obter um ótimo resultado, mesmo que não seja perfeito. Eu também acho que estamos mais focados no cumprimento das nossas responsabilidades em relação ao afirmar nossos direitos.

Liberdade de expressão
Ao contrário de americanos (em particular), eu acho que a maioria dos australianos, ficariam perplexos com a famosa frase de Voltaire – “Eu não concordo com o que você tem a dizer, mas vou defender até a morte seu direito de dizê-lo” que pode ser aplicada a um desagradável discurso racista, por exemplo. Eu penso assim: “Não, eu não estou disposto a defender, mesmo com uma assinatura, o direito de um indivíduo ser fanático e detestável, eu certamente não estou disposto a defender essa atitude com a minha vida.” Parece que em muitos lugares, a ideologia  triunfa sobre o pragmatismo. Na Austrália tudo é muito prático: É melhor arriscar a vida por um fanático que quer ser autorizado a ser detestável, ou fazer o fanático calar a boca? Parece uma escolha fácil e óbvia para mim, e eu suspeito que é assim para a maioria dos meus colegas australianos.

Classes Sociais
Nós somos uma sociedade muito igualitária; nós não gostamos da consciência de classe, pompa, circunstância e formalidade. Mesmo por que nós somos em grande parte segregados em classes no sentido de que existem áreas socioeconômicas mais altas e mais baixas – isto é, em grande parte, apenas porque aceitamos que todo mundo pode viver em uma área que eles podem pagar“, e para nós não é aceitável que, por você estar vivendo em um lugar mais rico se ache melhor” do que as pessoas de outras classes. (Embora os bogans” – tipo osrednecks” dos EUA são o assunto de um bom número de piadas carinhosas. Especialmente se você sugerir que você também é um pouco Bogans em alguns aspectos). Ver autodepreciação mais abaixo.

Política
A política partidária é considerada inadequada para se discutir na maioria dos contextos sociais. A questão política particular – como a política de requerente de asilo, ou impostos, ou o financiamento da saúde – pode ser discutida no trabalho ou socialmente, e a posição de um pode se alinhar com uma partido em particular, mas tomamos muito cuidado para restringir a discussão sobre as posições relativas ao problema, e tentar não ficar muito emotivo ou expandi-lo para outras áreas. Se alguém demonstra muita irritação e emoção, os australianos geralmente vão ficar horrorizados com uma sensação de que essa pessoa não possui autocontrole e isso é considerado de mal gosto.

Enquanto nos EUA noto que as pessoas podem chamar-se “um democrata” ou “um republicano”; essa terminologia nunca é aplicada a não-políticos na Austrália. No máximo, pode-se afirmar ser “um eleitor ALP”. Geralmente pensamos que não há nenhuma partido que todo mundo concorda com, e muitas pessoas vão alternando os partidos no poder, e isso é porque a nossa sociedade é menos fragmentado e as diferenças ideológicas entre os dois maiores partidos, na verdade, não são tão grandes. Eleições são decididas mais com as questões sociais que existentes no momento de uma eleição, não porque o país como um todo é mais ou menos associado a um partido político em particular. Para chamar-se “um liberal” (um dos nossos partidos), por exemplo, seria visto como muito extremista, a menos que você seja um funcionário do partido. Você raramente vai ver demonstrações de filiação política, tais como adesivos nos carros, por exemplo. É geralmente considerado de mau gosto.

Religião
A religião é em grande parte não é vista como um problema. A suposição é que as pessoas ou são “cristãos não praticante”, ou são ateus, ou são “culturalmente cristãos”. Pouquíssimas pessoas frequentam regularmente a igreja. Nós somos uma sociedade muito secular. Abertas para pessoas religiosas, mas esses são frequentemente vistos com certa desconfiança. (Como o primeiro-ministro Tony Abbott, um católico devoto tem experimentado.)

Muitos pontos de vista expressos pela direita religiosa dos EUA – como ser pró-vida, anti contracepção, a educação anti-sexo, anti-gay, ou antirrevolução – são praticamente desconhecidos no discurso público australiano, e quando falados, são quase unanimemente condenados. Existe um senador, Cory Bernardi, que provavelmente é bastante centrista pelos padrões republicanos, mas é amplamente considerado um extremista lunático na Austrália, e é praticamente o único político australiano que fala sobre alguns desses pontos de vista. A posição oposta sobre todas essas questões é o padrão e o consenso, mesmo entre aqueles políticos que são religiosos. Nossos políticos geralmente aceitam que eles são eleitos para representar seus eleitores, e os seus constituintes esmagadoramente não compartilham suas crenças religiosas.

Autodepreciação
Nós não nos levamos muito a sério. Não há quase nada que não vire uma piada. Às vezes a gente vai até longe demais. Mas as nossas auto criticas constante nos mantem humildes, e na verdade, eu acho que promove o nosso autodesenvolvimento. Aprendemos resiliência em uma idade muito jovem, com os nossos irmãos e amigos da escola tiram sarro do nosso cabelo vermelho, ou do nosso andar desajeitado, falta de habilidades nos esportes, ou o que quer seja. Temos melhorado nas últimas décadas na distinção entre “brincadeira inofensiva” e “assédio moral”. Se é óbvio que alguém está realmente chateado por ser provocado sobre algo, nós paramos. Mas rimos dos nossos próprios erros e dos outros é um passatempo nacional. Somos extremamente irreverente em nosso senso de humor, também: não respeitamos mais alguém simplesmente por ter um bom emprego, ou por ser mais velho, ou ganhar um prêmio, por exemplo. Nosso Respeito é para quem você é como pessoa, não por quaisquer medalha ou mérito no trabalho que essa pessoa alcançou.

Empresas e Profissionais
Uma manifestação do que eu acabei de falar é que os cartões de visita, muitas vezes não listam seu cargo, mesmo quando eles são totalmente pertinentes. Quando o carga aparece,  tem muito menos destaque do que em muitos outros países. Também é raro se gabar sobre a instituição da qual você obteve as suas qualificações. Um diploma de uma universidade australiana possui um grau de qualidade; não se importam se você fez uma das universidades G8 ou não. É qualidade do seu trabalho que é importante, não os seus contatos ou o prestígio de sua universidade.

Os desprivilegiados ou “batalhadores”
Nós amamos o azarão. Vamos proclamar em voz alta, e rir, mais das nossas falhas do que os nossos sucessos. Vangloria-se e autopromoção é culturalmente desaprovado, mas admitir suas falhas e rir delas soa muito bem pros Australianos. Antes de cada eleição, ambos os partidos políticos trabalham duro para dar a impressão de que eles tem certeza que vão perder, mesmo que eles liderem nas pesquisas, porque a pesquisa mostrou que é uma estratégia para vencer a votação; como já disse nós amamos um azarão!

O clima
Deixando a Temperatura de lado, temos um incrível céu azul, que eu realmente sinto falta quando viajo para outras partes do mundo. Eu não reparava como fazia falta ter um sol e céu azul brilhante até passar três semanas de  inverno no Reino Unido, tive um forte sentimento de que eu tive o Transtorno Afetivo Sazonal. Não foi nada agradável, e eu digo com toda a sinceridade que eu sinto muito por aqueles que não tem uma vida com bastante sol. Não é uma questão de brincadeira; isso pode afetar profundamente sua saúde mental.

Nossos Pontos Problemáticos
Minha esperança é que a Austrália continue a desfrutar de muitas bênçãos, enquanto resolvemos estes problemas:

  • A situação dos indígenas australianos. Eu não acho que a falta de progresso nesta área é devido a falta de vontade ou dinheiro, mas porque é uma questão extremamente complexa.
  • Nosso tratamento aos requerentes de asilo. Deveriam permitir que as pessoas venham de avião e pedir asilo em terra ao invés arriscar suas vidas no mar.
  • Mais opções e apoio para as pessoas com doença mental e deficiência. O futuro regime de seguro de Deficiência Nacional (NDIS) vai de alguma forma para ajudar as pessoas com deficiência aos serviços de acesso para melhorar a sua qualidade de vida, mas temos um longo caminho a percorrer no que diz respeito à saúde mental.
  • A ajuda externa. Nós não estamos nem perto de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Resumo
Temos uma extraordinária qualidade de vida. As despesas são muito elevadas, mas também são elevados os nossos salários. Nossos “pobres” são muito menos pobres do que os pobres pelo mundo. Temos níveis muito elevados de segurança pessoal. Temos universidades e um ótimo sistema de saúde. Gostamos de rir e somos muito irreverente. Temos uma abundância de sol e tempo bom. Somos realmente muito abençoados. E eu espero que nós vamos continuar trabalhando para assegurar que todos os australianos e os australianos em potencial, tenham acesso a essa qualidade de vida, que nós compartilhamos de forma inteligente com o mundo em desenvolvimento.

Imagem: telegraph.co.uk

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6 COMMENTS

  1. Adorei a entrevista, pena que fica difícil de entender o texto com tantos erros gramaticais, de concordância e ortográficos.

  2. Michelle e Jerry parabéns pelo site! O trabalho de vocês é espetacular.

    Há algum tempo venho acompanhando os posts e eles são sempre interessantes e bem escritos. Mas este post em específico me surpreendeu, por ser tão inusitado. Leio outros blogs sobre a vida de expatriados na Austrália e ainda não havia visto nada assim.

    Vocês realmente pensam fora da caixa e trouxeram um ponto de vista super interessante e extremamente importante. Afinal quem melhor para falar sobre um país do que um nativo?

    Estou organizando minha vida para fazer a loucura de seguir meu sonho, ano que vem estarei por ai.

    Por favor continuem com este trabalho extremamente significativo e impar.

    Muito obrigada!

  3. Muito bom a matéria, é bom ler algo que uma verdadeira cidadã tem a dizer sobre seu país.
    Comparando com o Brasil, os problemas deles são muito poucos.
    Gosto muito deste blog, sou leitor frequente!
    Parabéns.
    Deus abençõe.

  4. Olá pessoal! Estou fazendo algumas pesquisas sobre intercambio e achei o site de vcs. achei uma publicação antiga na qual relatam q fizeram faculdade no Hillsong. Minha escolha por Sydney é simplesmente para fazer um dos Colleges e conhecer um trabalho social deles. Mas será que consigo trabalhar ao mesmo tempo? O q vcs acharam do curso? To numa dúvida terrível do q fazer.
    obrigada pela atenção

  5. Baita matéria, estou me preparando para ir pra Austrália/Brisbane, em janeiro de 2016. Sou leitor frequente do seu site, sempre me ajuda com minhas eventuais duvidas.

    Parabéns.

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